Brave New Modulor
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(Source: pushthemovement)
FELIX(Z) GONZALES-TORRES
PARTE I
Cruzei neste ultimo final de semana com um tapete de balas azuis de Felix Gonzales Torres. Seu nome estampado em letras garrafais nas paredes geladas da exposição era um atrativo obvio. O que soou peculiar foi o som quente de seu nome latino.
Dentro apenas balas azuis pelo chão formando um retangulo preciso e um cordão de lampadas no angulo das paredes esparramando pelo chão.
Havia algo errado, ou exatamente correto ali. Não havia nenhum sinal de alerta. Nada de “não toque”. Fui até legenda na parede. 130kg de Bala em volume variável.
Constatei que a própria legenda me estimulava a voltar para o tapete e responder as sugestões que ele me dava.
A princípio não entendi, agora que já me refiro a ele como tapete, faz mais sentido pra mim. A primeira atitude que me veio ao corpo foi caminhar sobre ele.
Não tinha a intenção de pisar sobre as balas. Tirei meu chinelo. Dei o primeiro passo delicadamente abrindo espaço entre as balas com os pés e somente para eles.
O Mosteiro de São Francisco de Assis em Olinda
Coerência entre espaços livres
O edifício é um exemplar barroco do século XVII e está entre o conjunto de monumentos de Olinda reconhecido como patrimônio mundiais da humanidade.
Pretende-se destacar aqui os três espaços livres que o edifício conforma e traçar um sentido coerente entre eles. São eles: a praça do cruzeiro, o pátio e o claustro exterior.
A praça contém como único elemento físico de composição direta o cruzeiro e o seu piso uniforme que conforma todo o espaço. Em oposição à ele, ou seja, a composição perimetral da praça se dá pela fachada dos edifícios, os acidentes naturais do terreno e a vegetação como paisagem de fundo. Sem dúvida o que governa esta paisagem é a fachada do mosteiro.
O pátio tem em comum fisicamente com a praça somente o piso uniforme. É conformado totalmente pela edificação. Só é espaço livre pelo paralelo entre piso e o céu. É também, como na cidade, elemento de articulação de caminhos e acessos, da circulação. Na ausência da paisagem, os azulejos fazem o papel de cenário que se mistura com as arcadas numa fusão entre cenário e fachada.
Por fim o claustro é o espelhamento simétrico privado do largo público. Um quadrado impreciso de piso uniforme entre o meio cheio e meio aberto. De dois lados as fachadas, dos outros dois o mar e a paisagem. Criado e conformado justamente para ver o mar. Quase secreto, isolado por todo o prédio e pela elevação considerável em relação ao terreno. Sua razão maior é o deleite.
Revolta no Egito
2 milhões de pessoas
Praça Tahrir. Janeiro de 2011
Cairo, Egito
19.439.541 habitantes
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Parada do Orgulho LGBT
3,5 milhões de pessoas
Avenida Paulista. Junho de 2011
São Paulo, Brasil
19.681.716 Habitantes
Caminhos gozosos para casa
Acabei de me mudar para São Paulo. A capital das Cidades no Brasil. Seus Mitos são quase maiores do que seus quilômetros de asfalto e foi por eles que eu voltei para casa no último domingo.
Sai de um de seus mais altos mitos, a linha de encontro mais noticiada da Capital. A Avenida Paulista. Resolvi voltar a pé para casa.
Desci pela Rua Augusta, um caminho óbvio para se chegar ao centro.
Passo pelo posto na Esquina da Rua Peixoto Gomide e viro à direita. Este trecho da Rua é a mais estreita ligação entre Rua Augusta e Rua Frei Caneca. Do posto já da pra ver a multidão na encruzilhada com a Frei Caneca. Estes aspectos fazem pra mim esse pedaço ser quase que mais um estabelecimento da própria Rua Augusta, uma praça anexo, uma curva praticamente obrigatória. Quase sempre chego lá e me deparo com uma multidão de homens, de todas as idades mas em sua maioria jovens.
Por um costume já posso considera-lo todos gays e consequentemente me sentir familiarizado e provocado ao mesmo tempo. Essa especialização é inevitável e deliciosamente erótica. Estamos forçosamente reunidos por um gozo comum. É delicioso e trágico ao mesmo tempo. De qualquer forma é uma delícia. E vai melhorar pelo caminho.
Não encontrei ninguém conhecido desta vez e não quis esperar sozinho por algum presente do acaso. Continuei descendo, só que de volta pela Augusta. Era domingo como eu disse e quase todas as grandes baladas ou os bares mais agitados não estavam abertos, pelo menos não as 22h30. Isso já colabora para que hajam menos pessoas até nos estabelecimentos funcionam aos domingos. Além do mais, depois de todo Domingo vem uma Segunda-Feira de trabalho exageradamente matinal para muita gente.
Passei por puteiros reluzentes, lembrei de uma sauna que imaginei estar funcionando na Frei Caneca e fui seguindo só imaginando o que se passava atrás de cada fachada com Neon.
Cheguei na demolida Praça Roosevelt, subi à esquerda em direção à Rua dos Teatros, passando antes pelas últimas fachadas de Neon do caminho de volta a direita. Na Rua dos Teatros não tinha ninguém, mas conforme eu passava, uma série de peças foi acabando quase que sincronizadamente. Aos poucos parece que a rua iria se encher, mas eu não fiquei pra ver. Fiquei com vontade, mas queria uma companhia previa. Segui.
Estou começando a conhecer o trabalho e a criação no Teatro. É interessante a sensação de que uma Rua, com estabelecimentos semelhantes mas de fato distintos, reúne todo um grupo de pessoas que trabalham com a mesma coisa. Aqui, diferente da Frei Caneca, é a atividade criadora que reúne as pessoas. Mas tratando-se de Teatro fica claro que desejo e ofício são praticamente indissociáveis. E se o produto do artista é seu próprio corpo e espírito, só sentar na calçada para vê-los passar é pra mim um voyeurismo delicioso.
Mas no domingo, ficou só na lembrança.
Fui em direção à Praça da República. Passei logico pelo Copan e satisfiz o típico desejo arquitetônico de olhar para o alto e se deliciar com a pilha ritmada de concreto.
Na Praça, passei pelo acesso de metrô que pretendia entrar para antes disso dar uma chegada até a Rua Vieira de Carvalho. Foi a primeira vez que estive na rua, mas fui pois sabia justamente o que encontraria. De novo uma multidão de homens, desta vez em sua maioria mais velhos. Um outro lugar que posso considerar praticamente todos gays e desta vez ao longo de uns três quarteirões de com bares e pistas de dança. De novo as sensações muito parecidas com as da Rua Frei Caneca.
Foi então que eu cheguei no Largo do Arouche. A grande praça estavam lotada de gente. Eu me senti em uma cidade de poucos milhares de habitantes em que todos os habitantes estavam na única praça do lugar. E a maioria muito provavelmente era gay ou muito provavelmente isso não importava pra ninguém. Aqui eram aparentemente mais pobres do que na Frei Caneca. Parece menos uma questão só econômica. Os rapazes no Arouche eram mais semelhantes, indistintos, roupas coloridas que diziam a mesma coisa. Eram mais morenos. Na Frei Caneca cada um fazia questão de ser muito um personagem de si mesmo. Tinham mais invenção e invenção não custa necessariamente muito mais. Talvez seja uma maneira diferente de inventar. Talvez no Arouche exista alguém inventando por eles. No Arouche eles eram mais jovens que na Frei Caneca. Enfim fui para o metro. Impressionado.
Depois disso, logo fui pra casa. Mas fui imaginando o restante do percurso que poderia ter feito a pé e que já fiz em partes em outros momentos. Os Cinemas eróticos na Avenida São João dos quais eu só ouvi falar e até o do minhocão das caminhadas noturnas, no completo vazio, que as vezes pode ser quebrado por alguém que cruza o caminho e que pode eventualmente olhar pra trás ao mesmo tempo que você.
Parque Greenwish, Londres, Inglaterra. 2010.
Fonte: Arquivo Pessoal
ÓCIO
Talvez o único desfrute que se pretende completamente ausente na lógica da produção capitalista. Ócio é a suspensão de todo o compromisso em relação ao mundo, resumindo-se apenas ao REPOUSO descomprometido. Nesse sentido, seria um das principais incongruências para a arquitetura se mantivermos uma relação primária, direta, rasa e objetiva entre programa e projeto ou entre economia e eficiência. Ou seja, o ócio, dentro destes parâmetros não se projeta. Ele é, nestas condições, um acidente inevitável e as vezes desejável. Mas enquanto acidente, ele escapa a incumbência do arquiteto se mantivermos estáticas as relações apresentadas anteriormente.
O conforto nesse caso é uma gatilho para manifestação espontânea do ócio nos ambientes em que se tolere esse desfrute. A suspensão proposital nas intensidades variáveis de emoções e sensações para um nível genérico de aceitação, pois qualquer nível de intensidade fora da média esta sujeita ao julgamento subjetivo entre prazer e incomodo.
Ladeira Porto Geral com Rua 25 de Março, São Paulo, Brasil. 2010
Fonte: Flickr|Everton de Souza “Kpta”
PODER
O prazer de exercer potencial de DOMINAÇÃO adquirido. No caso da sociedade do capitalismo tardio, da sociedade consumista, do mercado financeiro. O prazer do CONSUMO. Os estabelecimentos que oferecem mais do que bens de subsistência, sobretudo os novos mercados das imagens, das idéias, dos sonhos. Comprar é construir nossa identidade coletiva e midiática. Prazer da acumulação infinita, pois o desejo não está no volume acumulado, mas na capacidade de se continuar acumulando e na própria aquisição descontinua.
Nos exemplos menos acentuados, dominação territorial ou de recursos de forma temporária ou permanente. Poder entrar e impedir o acesso do outro.
Hegemonia do poder econômico torna as lojas, shoppings e outros estabelecimentos ou estratégias de base comercial atributos muito relevantes das cidades.
“Asado em Mendiolaza” do Fotografo Marcos López. Córdoba, Argentina, 2001. Fotografia.
PALADAR
Provavelmente não por acaso que o texto clássico dedicado a Eros de Platão seja conhecido como o Banquete. A abundância de alimento, a FARTURA ou até o próprio prazer do paladar une-se com a cerimônia do ENCONTRO para proporcionar nas pessoas um sentido maior e diferente de sensação. Desde as tradições de banquetes nos feriados religiosos até um churrasco ou o sagrado bar com a divina cerveja entre amigos e anônimos são manifestações possíveis desse prazer.
Walt Disney World, EUA. Fonte: Eyebird
LÚDICO
Prazer de exteriorizar ou perceber exteriorizado elementos do IMAGINÁRIO surreal ou fantástico. Sentir-se na utopia, complementação material do sonho. Os espaços e elementos lúdicos sugerem uma inverdade desejável, que sendo falsa, exige ou convida ao esforço mental de concluí-la no plano da imaginação.
A brincadeira do “faz-de-conta” infantil. Espaços que sugerem outros lugares distantes ou inexistentes, reais ou irreais, conhecidos ou desconhecidos, mas sobretudo inacessíveis no plano da realidade concreta conhecida a partir do local e tempo em que estão.
Bairro da Luz Vermelho, Amsterdã. 2011.
LIBIDO
As prostitutas que vagueiam pelas esquinas escuras de um bairro que durante a noite deixou de contar com a vitalidade vibrante do dia, luzes coloridas, letreiros cintilantes e a luz através das brechas de portas e cortinas configuram uma territorialidade erótica em regiões da cidade. O ERÓTICO dialoga no espaço urbano com a MARGINALIDADE, o abandono, a diversidade e certa elegante BOEMIA. O espaço reflete os valores morais da sociedade neste caso, muitas vezes na forma de resistência. Os edifícios, nos exemplos nacionais, são como caixas forte que ocultam um segredo valioso. Recintos mais sofisticados se aproximam de palácios ou fortalezas.
Cárceres da intimidade que exalam aromas “feerico-hormônicos” em suas calçadas com suas luzes e suas fadas. É notável como as regiões em que se concentram estas atividades adquirem características muito semelhantes que conta com atributos diversificados que vão desde equipamentos até comportamentos e vestimentas.
No âmbito público a libido se embrenha desde os banheiros públicos aos parques ou praças que são os locais mais tradicionalmente recomendados para os encontros amorosos, permitidos ou proibidos. São remotas as histórias da tradição contada pelos avós que explicava o passeio de moças e rapazes em sentidos contrários no perímetro das praças e que contavam apenas com o encontro dos olhares que se cruzavam neste movimento e aos poucos evidenciava as intenções amorosas de um casal.
Mas é no Eldorado nacional das areias da costa Brasileira que o prazer dos corpos com outros corpos, o sexo explode a sol aceso. Um prazer espontâneo que do calçadão às ondas vai se desprendendo do PUDOR, vai se afastando dos mais rígidos códigos de MORAL das instituições mais rígidas, como as roupas vão se afastando do corpo.
(Source: oglobo.globo.com)
Favela do Moinho, 2010. Fonte: Flickr Danilo Verpa
LAZER
Lazer comumente seria o que é feito nos momentos de folga. Uma oposição evidente ao trabalho no presente. Neste contexto entretanto, o termo lazer será utilizado em um sentido estrito e limitado, neste caso para caracterizar atividades de fruição e estímulo do CORPO.
Atividades esportivas, competitivas ou não, de dança, de MOVIMENTO que têm como principio o desfrute através da ação ativa do corpo que desempenha uma determinada ação CODIFICADA. O jogo, a competição, a dança, os exercícios físicos, as artes marciais, o atletismo contêm em si regras e atributos funcionais que demandam equipamentos ou condutas pré-definidas e gerais que garantem o justo embate na competição e a otimização segura ao corpo no caso dos exercícios físicos ou um sentido de desafiar possibilidades de controle e resistência.
Mecca, Arábia Saudita. 2010. Fonte: Flickr: asyiqul^huur
ÊXTASE
Prazer ou emoção interior ou transcendental desencadeada geralmente como FESTA ou RITUAL. Quando os sentidos são manipulados pela experiência coletiva e espacial. Do carnaval aos cultos religiosos. LUZES, SOM, MONUMENTALIDADE, SIMBOLOGIA servem de mecanismos de manipulação dos sentidos. Os espaços do êxtase permitem a fruição livre do espaço de maneira a não interferir na atmosfera simbólica que é muito mais freqüente e significativa do que a presença de elementos físicos. O que complementa o espaço é o individuo ou a multidão e as suas ações.
(Source: flickr.com)
Monumento Contínuo, Superstudio, 1969. Itália.
DELEITE
Prazer pela ADMIRAÇÃO, uma paixão fundamental. Neste caso entendida como todo e qualquer esforço antrópico de criar ou admirar idéias de belo, em todas as suas noções. Pode ser paisagem produzida ou estrutura elaborada para se desfrutar de paisagem natural. A apreciação cinematográfica, cênica, musical são máquinas de apreensão. Os museus são tanto depósitos quanto fábricas destes conceitos. Os monumentos são a solidificação destes sonhos. Os parques são manipulações de paisagens.
